quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Mo.vida [ou] Ode ao movimento

Eadweard Muybridge 1884-1887

Ver-me em movimento, pela primeira vez ( e não pela última), foi um dia, aquele dia, algo “importante”; meu movimento, importante movimento. Esquisito movimento, belo (?) movimento. O movimento, a flexibilidade, a conotação das palavras daquela língua, a língua humana, que faz o movimento ser belo e esquisito ao mesmo tempo.
O movimento transferido de mim para ele por vias dispersas no ar, daqui até lá. O movimento como passos que sabem aonde ir nas ruas e esquinas sujas do desejo. O movimento como objeto antropológico de estudo, como objeto inerte e constantemente mutável na prateleira das receitas. O movimento que destrói e constrói ao mesmo tempo que rói e corrói tua vida. O movimento que é retido na retina psicótica do observador, que observa, e admirando (ou não) se sente indescritivelmente atraído por tal movimento. O movimento que desafia a gravidade, que é quase uma irrealidade e que não se deixa mentir. O movimento que passa, que foi agora, que perde suas escamas como um peixe que às mudas e as deixa irem. O movimento que não é efêmero, que é guardado secretamente na ‘caixa das memórias secretas’ do tal, o que fica, que se afirma. O movimento, explicáveis ou não, fracos ou não, coloridos ou não, justo ou não. O movimento de tudo que é vivo, e tudo que “é” morto. O movimento que vemos e que não vemos, que se passa enquanto morremos. Os movimentos periódicos, repetidos, inocentes por serem. O movimento como a via de revolução, como liberador de idéias, prestes à serem expulsas do nosso altar interior. O movimento cortante, que dissipa o tempo com navalha de revelia. O movimento como ato para atacar o inimigo, com pedaços de matéria ou pedaços de palavras. O movimento para atrair o outro, com palavras armadas, inocentes, ousadas e cheias de força, desejo. Movimentos interdependentes, de mim para (e com) você e de você para mim, sincronizados, os dois, se completando no movimento. O movimento do corpo uniformemente ajustado e reproduzido por dois. Pernas que se movimentam, lábios IDEM, desejo. O movimento do objeto de desejo. O movimento dos seus olhos, dos meus olhos, dirigidos pelo órgão – Mor em mim, em você. O movimento para chamar a atenção, de um corpo para outro. O movimento do relógio que nos mata à cada hora passada. O movimento dos órgãos que nos habitam, mas que à nós mesmos. O movimento do rio que atravessa aqui e ali, que nunca se repete que é constante e eternamente mutável. O movimento do lápis que é meu e ao mesmo tempo não é, feito por mim, de mim e que, no entanto, não é para mim. O movimento do sorriso que constrói ninhos inocentes em terras inimigas. O movimento do tempo nos desafia que é mais forte que nós e faz com que definhe-mos, ponto à ponto. O movimento das folhas e flores na natureza, resultado do secreto movimento das estações. Folhas caídas, flores nascidas. E tão desavisadamente quanto à verdade, o movimento se afirma, mergulhado em lagos profundos de emoções, ou não. E certeiro, o movimento que não foi, será. Será pintado com cores de esperança e pincéis tênues na boca e na alma. E será, não invencível, mas tão vigoroso que quase se materializar-se-á. Porque somente os inocentes criam vínculos com vagos movimentos. Criam, recriam e permanecem nesse movimento. Um movimento esperado, engraçado, esquisito e quiçá, belo.

À WM. 20/10/08


2 comentários:

mauro luciano disse...

o movimento movimenta, né?

beijao,

escreva mais textos.

Raíssa S. disse...

E como movimenta!